domingo, dezembro 03, 2006

A Venezuela e a nova ordem política latino-americana


Os venezuelanos vão às urnas hoje para decidir quem será seu presidente nos próximos anos e, se tudo correr como o planejado, o atual mandatário, Hugo Chávez, será re-reeleito com 52% dos votos sobre 25,5% de seu adversário, o oposicionista Manuel Rosales. Nos últimos tempos, a Venezuela tem aparecido no centro das discussões sobre os rumos da América Latina no século XXI. O sub-continente, que sofreu com o imperialismo desde o processo colonizatório até a implementação "de cima para baixo" das políticas neoliberais na década de 1990, agora parece que quer tomar as rédeas sobre o seu destino.

A figura de Chávez, nesse contexto, é uma das peças-chave desse novo modelo que está sendo gerido no país. É complicado, no entanto, definí-lo como um socialista clássico, baseado nos moldes primordiais elaborados por Karl Marx. Pelo contrário, Chávez é controverso e gera amores no mesmo ritmo em que angaria detratores de todos os matizes políticos, tanto à esquerda como à direita.
Ontem estava dando um "passar d'olhos" na Época desta semana. Eles fizeram um infográfico posicionando ideologicamente os principais líderes latinoamericanos.

No termometro da Época, Chávez representa as altas temperaturas vermelhas, enquanto o presidente da Colômbia, o direitista Alvaro Uribe, aparece na outra extremidade, em azul. O nosso Lula está no meio, junto à Michelle Bachelet, socialista eleita por uma coalizão de centro-esquerda no Chile, a famigerada "Concertación".


Lendo isso, lembrei de uma recente conversa que tive com amigos sobre como posicionar os modelos que estão aparecendo na América Latina dentro do espectro clássico esquerda-direita. Mesmo conseguindo identificar pontos de contato com as bandeiras tradicionais da esquerda nesses governos, como as políticas compensatórias para setores excluídos, heterodoxias na economia e a forte presença do Estado como agente condutor desse plano, ainda é muito forçoso classificar Lula, Chávez, Morales e Kirchner, para ficar só em alguns, como socialistas ou comunistas.

Isso por que eles ainda se valem de mecanismos da economia de mercado para fazer valer a sua idéia. É algo meio contraditório, no entanto, válido se formos levar em consideração a disputa por hegemonia. Na minha opinião, um novo modelo político vem sendo criado na América Latina, e é algo que precisa ser pensado e discutido dentro da sociedade.

Esse modelo combina elementos da democracia direta rousseauniana, quando estabelece uma relação direta entre o poder e as massas, desprezando um pouco os poderes Legislativo e Judiciário. É um poder que tem a cara do povo, que se sente maior representado. A prova cabal disso são os semblantes proletários de Evo Morales, Lula e do próprio Chávez.
Esse novo sistema ainda é tosco e possui problemas graves de diversas ordens. Mas ainda está em fase experimental em que a busca por uma hegemonia de práticas e pensamentos se expande para depois discutir um modelo concentrado e redondinho de ações.

Por isso saúdo a terceira reeleição de Chávez, que me perdoem os puristas e pseudo-democratas de plantão. A elite tradicional precisa levar umas lambadas de vez em quando.


Leia mais sobre a eleição da Venezuela e os rumos da América Latina em uma interessante matéria especial da Folha de S.Paulo de hoje, aqui.