sexta-feira, dezembro 29, 2006

Tipo Colômbia

Governo do estado já sabia

Rosinha e secretário de Segurança minimizam ataques do tráfico para se vingar de milícias

O Dia

Rio - Durante todo o dia de quinta-feira, a única autoridade a dar uma explicação convincente sobre o motivo dos ataques foi o secretário de Administração Penitenciária (Seap), Astério Pereira dos Santos. Segundo ele, a cúpula da Secretaria de Segurança Pública (SSP) já sabia da onda de terror desde terça-feira. "Recebi informação do setor de inteligência da própria SSP, com data de 26 de dezembro, informando que bandidos atacariam dia 28 (quinta-feira), em resposta à atuação de milícias que estariam expulsando o tráfico de comunidades", revelou.

Astério disse ainda que há dois meses enviara ofícios para os órgãos de inteligência do estado e da União, avisando sobre a insatisfação de líderes do tráfico presos com o avanço das milícias.
Já o secretário de Segurança Pública, Roberto Precioso, alegou que a mudança de governo e, conseqüentemente, do comando da Seap, teria motivado o ataque."Os bandidos estão pressionando para negociar com o novo governo concessões e privilégios. O medo deles é que seja adotado um regime disciplinar mais duro que eles querem impedir de qualquer forma", disse. Sobre as milícias, Precioso descartou. "O assunto milícias pra mim é uma grande besteira. Não existe. O que existe são justiceiros, matadores, e todo mundo misturou tudo", avaliou.

O documento, com o timbre da Subsecretaria de Inteligência (SSI), que alertava sobre os ataques de ontem, tinha informações dando conta de que dia 25, durante uma festa de Natal no Morro da Mangueira, o traficante Jorge Ferreira, o Gim, que controla o tráfico na Cidade de Deus, Jacarepaguá, se reuniu com traficantes de vários pontos da cidade para planejar o ataque. A data marcada: 28 de dezembro. (leia a matéria completa aqui)


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Os ataques que aterrorizaram o Rio de Janeiro ao longo de toda a madrugada e parte do dia de ontem revelam uma nova face da violência urbana. Com a entrada de um "novo ator" no jogo de disputa pelo poder nas comunidades, as milícias paramilitares, as fragmentadas facções do tráfico de drogas ensaiam uma união contra este, que parece ser um novo inimigo comum.

As milícias já agem no Rio há bastante tempo, mas só agora parecem decididas a expandir os negócios. Acredito que esse súbito interesse tenha a ver com a conivência de autoridades estaduais e municipais para com elas. É lido e sabido que a "mineira", como é conhecida, têm representantes eleitos na Câmara Municipal, na Assembléia Legislativa e até mesmo no Congresso Nacional.

Fazendo uma análise bastante fria, fomentar essas milícias - formadas em sua maioria por policiais - foi uma grande burrice do governo. Parece até que nunca ouviram falar do lema "dividir para conquistar" dos romanos, e acabaram por unir as três principais facções do tráfico carioca, o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Amigos dos Amigos (ADA). Pode ser que agora a guerra seja conflagrada e o clima fique mesmo "tipo Colômbia", como já apregoava o funk proibidão.

Como sabemos, a Colômbia vive um problema endêmico de guerra civil entre as Forças Armadas Revolucionárias (Farcs) e grupos paramilitares que disputam espaço em todo país. A única diferença entre os dois casos é que lá ainda existe um resquício ideológico, e aqui o que se vê é apenas uma sangrenta disputa por mercado.

E os ocupantes dos Palácios da Cidade e da Guanabara assistem tudo como espectadores privilegiados, placidamente.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

O insensível

Menino que não sente dor leva à descoberta de mutação genética

Folha de S.Paulo

O estudo de uma mutação genética que torna seus portadores incapazes de sentir dor levou à descoberta de uma molécula que pode ser a base de potentes analgésicos. Cientistas da Universidade de Cambridge (Reino Unido) chegaram a essa conclusão após examinar pessoas com a anomalia em três famílias paquistanesas. A multinacional Pfizer já tenta criar uma droga com base no achado. (leia íntegra deste texto aqui)

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Mal foi feito o achado e a indústria farmacêutica já corre atrás para ganhar mais alguns bilhões, a partir de uma nova droga. O remédio para ficar indolor pode ser a vedete dos próximos verões americanos, e com certeza, se espalhará pelo mundo e chegará aqui no Brasil.

Como viver num mundo onde ninguém sente dor? A humanidade estaria preparada para isso? Para mim, o mundo indolor é um mundo apático. Depois das drogas que tratam das dores "mentais", essa nova descoberta pretende revelar ao mundo como viver sem a dor física também. Um coquetel de prozac com esse novo remédio controlará de vez os ímpetos do homem, além de seu poder de indignação. Afinal, para que se indignar quando não se sente nada?

terça-feira, dezembro 12, 2006

Momento cotidiano

Na semana passada umas meninas da Psicologia foram lá na minha faculdade perguntar se alguém queria ajudar num projeto delas, que fazia orientação vocacional com estudantes de pré-vestibular. Eu, sempre solícito, aceitei.

Mas os dias passaram e eu acabei esquecendo, ainda mais hoje com a repercussão das declarações do presidente Lula dizendo que é de "centro", descabelando o pessoal do PT. Hoje uma delas veio me buscar dentro do centro acadêmico pra falar com o pessoal. Resultado, não preparei discurso algum.

Chegando lá minha vergonha surpreendemente passou, e consegui falar com desenvoltura - eu acho - sobre a profissão que escolhi. Respondi perguntas sem pestanejar, não criei um panorama maravilhoso do jornalismo (o que é ridículo!) e ainda introduzi uma semente de pensamento sobre a democratização da comunicação, quando alguém me perguntou sobre ética.

Interessante era observar a atenção que aquelas pessoas estavam dando ao meu relato. Uma das meninas, que estava realmente interessada em fazer jornalismo (os outros ainda estavam em dúvida, ou já tinham escolhido uma outra faculdade), ficou bastante empolgada com a coisa.

Acho muito manero que as pessoas se interessem pelo que fazem. Eu tento fazer isso ao máximo. Espero que ela, se decidir fazer jornalismo, também o faça.

domingo, dezembro 10, 2006

Já foi tarde

Ex-ditador chileno Augusto Pinochet morre aos 91 anos

da Folha Online

O ex-ditador chileno Augusto Pinochet morreu neste domingo, às 14h15 (15h15 pelo horário de Brasília), aos 91 anos, no Hospital Militar de Santiago. Pinochet havia sido internado às pressas na madrugada de domingo (3), após sofrer um ataque cardíaco.

Pinochet passou os últimos anos de sua vida morando em Santiago e enfrentando acusações de abusos aos direitos humanos e fraudes cometidos durante os 17 anos em que esteve no poder. Sob seu regime, mais de 3.000 pessoas foram mortas por sua polícia secreta.

Apesar das acusações, o ex-general não chegou a ir a julgamento, já que sua equipe de defesa sempre alegou que sua saúde era muito frágil para que ele enfrente o processo judicial.


Recentemente, quando completou 91 anos, Pinochet divulgou um comunicado afirmando que assumiu a "responsabilidade política" pelos atos cometidos durante seu regime, mas que a única razão para suas medidas era "fazer do Chile um grande país e evitar a desintegração".

"Perto do final dos meus dias, quero manifestar que não guardo rancor de ninguém, que amo a minha pátria acima de tudo, que assumo a responsabilidade política de tudo que aconteceu", afirmou o ex-ditador em mensagem lida por sua mulher, Lucía Hiriart.

A nota foi lida diante de 60 partidários que foram cumprimentá-lo por seu aniversário em sua mansão, situada no bairro de La Dehesa, em Santiago.

Pinochet enfrentava processos por crimes de violações dos direitos humanos, fraude ao fisco e uso de passaportes falsos no chamado Caso Riggs --aberto após a descoberta de contas secretas no exterior, nas quais ele acumulou fortuna de US$ 27 milhões, cuja origem não foi determinada.

Direitos humanos

Entre os processos relacionados a direitos humanos, figuram o desaparecimento de dissidentes em 1975, na chamada Operação Colombo, na qual Pinochet foi acusado de envolvimento no seqüestro de ao menos três dissidentes por serviços de segurança de seu governo.

O ex-ditador chegou a ser preso em diversas ocasiões em conexão com os crimes. Na segunda-feira passada (27), o juiz Víctor Montiglio ordenou a prisão domiciliar o ex-ditador como suposto responsável pelo seqüestro e homicídio de dois presos políticos em 1973, dentro do caso chamado "Caravana da Morte".

As duas vítimas da "Caravana", Wagner Salinas e Francisco Lara, eram membros da segurança do presidente socialista Salvador Allende, que se suicidou no palácio de La Moneda durante o golpe liderado por Pinochet em 11 de setembro de 1973.

Em 2006, o general Manuel Contreras, que chefiava a Dina [polícia secreta chilena] sob o regime de Pinochet, testemunhou ao juiz Claudio Pavez que Pinochet e seu filho, Marco Antonio, estariam envolvidos na produção clandestina de armas químicas e biológicas e no tráfico de cocaína. As acusações estão sendo investigadas pela Justiça chilena.

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Já foi tarde, e ainda conseguiu se safar. Menos sorte tiveram as centenas de vítimas do regime sangrento que Pinochet realizou no Chile. Esse post é dedicado a todos eles.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Agentes Smith Tupiniquins



Essa foto chamou minha atenção na capa da Agência Brasil. O fotógrafo Fábio Pozzebom retratou os formandos do curso para delegado, perito e escrivão da Polícia Federal. O curso teve seu encerramento hoje em Brasília. Mas digam aí se não parece que os novos policiais federais seguem o modelito Agente Smith, do filme Matrix?

Um real ae, governadora?

15 h. Estava eu coçando na redação, quando o alarme soou e tive que ir pra rua. O governador eleito Sérgio Cabral tinha decidido se reunir às pressas com a atual (des)governadora Rosinha Garotinho no Palácio Guanabara. Como ele é o governador mais midiático da história do Rio de Janeiro, toda a imprensa foi convocada para lá.

16h. Chegamos no Palácio, ganhei um adesivo com "v" de visitante e fiquei esperando, fumando alguns - muitos - cigarros e trocando idéias com os coleguinhas de sempre. Um homem chega com algumas caixas, as apóia em algum lugar improvisado e abre, revelando doces caseiros.

"É tudo um real" bradou o vendedor, e logo um apinhado de gente já estava à sua volta comprando as tais guloseimas. "Tem guardanapo, moço?", disse uma moça enquanto se atrapalhava com a calda do bombom. "Tem tudo, só não tem dinheiro!", respondeu ele, bem-humorado, ostentando um crachá de passe livre pelas dependências do Palácio, bem mais importante do que o "v" distribuído para a imprensa.

Essa foi a metáfora máxima do governo que passou. Os trabalhadores informais chegaram até mesmo a vender coisas para a governadora, pelo mesmo preço que ela cobra as refeições nos restaurantes populares, um mísero real.

"Olha aí moço, o chefe da segurança tá te chamando, você pode vender isso aqui?"

"Não é por isso não, é que ele adora a trufa de nozes!"

terça-feira, dezembro 05, 2006

Ambientalistas em extinção

Alencar defende permanência de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente

O Dia

Brasília - O vice-presidente José Alencar defendeu publicamente nesta terça-feira a permanência da atual ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, no cargo que ocupa desde 2003. A declaração foi dada em resposta à rumores veiculados pela imprensa de que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acreditam que um novo nome permitiria acelerar obras de infra-estrutura que enfrentam dificuldades relacionadas ao licenciamento ambiental.

Dizendo falar como cidadão, Alencar declarou ter admiração pela ministra. "Sempre estive do lado dela, por razões óbvias. Ela é uma grande brasileira e tem condições excepcionais de ajudar o Brasil na preservação do meio ambiente, sem prejuízos para o crescimento", afirmou, acrescentando que os entraves ao desenvolvimento precisam ser resolvidos dentro da lei. "A gente tem de respeitar o meio ambiente", expressou.

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É uma grande sacanagem o que vêm sido feito com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. E quando eu falo de sacanagem, não estou me referindo apenas a operação montada para fritá-la no Ministério, e sim o isolamento silencioso do seu ministério em relação ao resto do governo.

Marina foi boicotada na questão dos transgênicos, no caso da importação de pneus velhos - que ocasionou a saída do Gabeira do PT -, as reclamações sobre a demora na expedição de licenças ambientais e, mais recentemente, com a declaração infeliz do presidente Lula que classificou a preservação do meio ambiente como um "entrave" para o desenvolvimento do país.

O mais engraçado disso tudo é que os papéis se inverteram e um dos maiores defensores da ministra é um puta industrial, o "capitalista sem coração", como apregoavam setores do PT à indicação de José Alencar para vice-presidência na chapa de Lula, em 2002. Alencar tem se mostrado mais à esquerda do que o próprio presidente, um dos ícones principais de toda a história da esquerda em nosso país.

Espero que Marina fique, assim como o Gilberto Gil na Cultura. São dois exemplos de ministério que implementaram políticas e lutaram por decisões que sempre foram bandeiras hasteadas pela esquerda. Agora, em nome de um duvidoso "desenvolvimento" as discussões ambientais são deixadas de lado. Não é interessante para o Brasil - nem para o mundo - alcançar taxas de crescimento absurdas e repentinas, ao molde chinês. Um país como o nosso, de fauna e flora ríquissimas, deve se preocupar com o desenvolvimento sustentável e harmonia com a natureza que o compõe, inclusive a natureza humana.




domingo, dezembro 03, 2006

A Venezuela e a nova ordem política latino-americana


Os venezuelanos vão às urnas hoje para decidir quem será seu presidente nos próximos anos e, se tudo correr como o planejado, o atual mandatário, Hugo Chávez, será re-reeleito com 52% dos votos sobre 25,5% de seu adversário, o oposicionista Manuel Rosales. Nos últimos tempos, a Venezuela tem aparecido no centro das discussões sobre os rumos da América Latina no século XXI. O sub-continente, que sofreu com o imperialismo desde o processo colonizatório até a implementação "de cima para baixo" das políticas neoliberais na década de 1990, agora parece que quer tomar as rédeas sobre o seu destino.

A figura de Chávez, nesse contexto, é uma das peças-chave desse novo modelo que está sendo gerido no país. É complicado, no entanto, definí-lo como um socialista clássico, baseado nos moldes primordiais elaborados por Karl Marx. Pelo contrário, Chávez é controverso e gera amores no mesmo ritmo em que angaria detratores de todos os matizes políticos, tanto à esquerda como à direita.
Ontem estava dando um "passar d'olhos" na Época desta semana. Eles fizeram um infográfico posicionando ideologicamente os principais líderes latinoamericanos.

No termometro da Época, Chávez representa as altas temperaturas vermelhas, enquanto o presidente da Colômbia, o direitista Alvaro Uribe, aparece na outra extremidade, em azul. O nosso Lula está no meio, junto à Michelle Bachelet, socialista eleita por uma coalizão de centro-esquerda no Chile, a famigerada "Concertación".


Lendo isso, lembrei de uma recente conversa que tive com amigos sobre como posicionar os modelos que estão aparecendo na América Latina dentro do espectro clássico esquerda-direita. Mesmo conseguindo identificar pontos de contato com as bandeiras tradicionais da esquerda nesses governos, como as políticas compensatórias para setores excluídos, heterodoxias na economia e a forte presença do Estado como agente condutor desse plano, ainda é muito forçoso classificar Lula, Chávez, Morales e Kirchner, para ficar só em alguns, como socialistas ou comunistas.

Isso por que eles ainda se valem de mecanismos da economia de mercado para fazer valer a sua idéia. É algo meio contraditório, no entanto, válido se formos levar em consideração a disputa por hegemonia. Na minha opinião, um novo modelo político vem sendo criado na América Latina, e é algo que precisa ser pensado e discutido dentro da sociedade.

Esse modelo combina elementos da democracia direta rousseauniana, quando estabelece uma relação direta entre o poder e as massas, desprezando um pouco os poderes Legislativo e Judiciário. É um poder que tem a cara do povo, que se sente maior representado. A prova cabal disso são os semblantes proletários de Evo Morales, Lula e do próprio Chávez.
Esse novo sistema ainda é tosco e possui problemas graves de diversas ordens. Mas ainda está em fase experimental em que a busca por uma hegemonia de práticas e pensamentos se expande para depois discutir um modelo concentrado e redondinho de ações.

Por isso saúdo a terceira reeleição de Chávez, que me perdoem os puristas e pseudo-democratas de plantão. A elite tradicional precisa levar umas lambadas de vez em quando.


Leia mais sobre a eleição da Venezuela e os rumos da América Latina em uma interessante matéria especial da Folha de S.Paulo de hoje, aqui.